LER TAMBORES É COMO ACOMPANHAR UM CORTEJO, Bernivaldo Carneiro

 

 LER TAMBORES É COMO ACOMPANHAR UM CORTEJO   


(Memória, mito e pulso ancestral)

  Em uma de suas passagens pelo Ceará, no ano de 2024, o amigo Domingos Pascoal presenteou-me com um exemplar de PORTUGAL e Minha Vó Cega. Livro de Antônio FJ Saracura no qual o autor narra as peripécias de uma excursão de quinze dias por terras lusitanas, protagonizada por eles dois, suas esposas e outro casal — procedentes de Sergipe. Uma obra que me fisgou logo nas primeiras páginas — e não por acaso. Porque o humor, a ironia, o sarcasmo, a irreverência e o discreto (e elegante) viés erótico fazem boa cama com o meu modo de escrever e de ler o mundo.

Concluída a leitura, escrevi ao amigo Pascoal revelando, com entusiasmo, minha admiração e afinidade imediata com a escrita de Saracura. Também sublinhei o regionalismo culto que tanto me apraz e a saudável prática de dar, com moderação, bons “tapas nos beiços com graus alcoólicos” — afinal, também somos filhos de Deus. A correspondência incluía ainda a proposta de adquirir outras obras do autor, fosse por dispêndio monetário, fosse por escambo literário — prática ancestral, civilizada e perfeitamente adequada a quem acredita mais em livros circulando do que em livros parados.

A literatura, porém, é pródiga em ironias bem ensaiadas. E assim se revelou durante o III Simpósio Nacional de Confrarias e Academias de Ciências, Letras e Artes, realizado em São Cristóvão, Sergipe, entre 22 e 24 de agosto de 2025. Eu me encontrava à mesa onde expunha meus livros quando fui surpreendido pela visita do próprio Saracura. Ali, enquanto nos conhecíamos, ele me dedicou “Tambores da Terra Vermelha” — gentileza que retribuí com “PAPÉIS INVERTIDOS & Outras Histórias”. A literatura, mais uma vez, fechava seus círculos.

“Tambores da Terra Vermelha” é daqueles livros que exigem leitura com olhos e ouvidos atentos. Reclama escuta profunda — quase ritual —, como quem se inclina para ouvir o que a terra tem a dizer. E o sítio Saracura, a terra vermelha e Itabaiana, território sergipano onde a obra se enraíza, têm muito a dizer. Falam pela memória, pelo sangue e pelo mito. A terra vermelha do título não é apenas um dado geográfico ou cromático: é matéria simbólica. Chão ferido e fecundo. Ancestral. Espaço em que o tempo não avança em linha reta, mas gira em círculos, obedecendo ao compasso dos tambores que marcam nascimento, luta, celebração e luto. Cada texto pulsa nesse ritmo antigo, onde palavra e percussão se confundem.

A literatura de Saracura é corpo e soa orgânica. Por vezes telúrica, até áspera, como tudo o que brota da terra sem verniz, mas nunca sem propósito. Sua linguagem cheira a barro molhado, ergue-se como poeira de estrada e carrega o odor do suor da labuta. Ecoa vozes que não couberam nos registros oficiais da História. Porque, em “Tambores da Terra Vermelha”, quem fala são os esquecidos, os silenciados, os que aprenderam a resistir batendo tambor.

O livro se configura como uma travessia entre o real e o simbólico. Algumas cenas começam como crônicas do cotidiano, mas logo se transfiguram em alegorias. Nesse território em que mito e experiência se entrelaçam sem pedir licença, surgem personagens que nascem indivíduos e terminam arquétipos — fusão que concentra grande parte da força da obra.

A musicalidade é outro mérito central. Para além do ritmo frasal, cuidadosamente lapidado, há uma cadência interna, quase percussiva, que sustenta a narrativa. Cada palavra parece escolhida para ressoar, não apenas para significar. Ler “Tambores da Terra Vermelha” é acompanhar um cortejo: ora lento, ora acelerado, mas sempre guiado por um pulsar invisível.

Há ainda uma dimensão eticamente nítida, marcada pelo compromisso com a memória coletiva e com a dignidade daqueles que fizeram — e ainda fazem — a história a partir das margens. Saracura não romantiza a dor, tampouco a transforma em espetáculo. Reconhece-a, nomeia-a e a inscreve no texto como parte constitutiva da identidade que narra.

Nesse sentido, o livro ultrapassa o gesto literário: é também um ato de preservação. A terra vermelha não está morta. Ali tudo palpita, lateja, pulsa. Nada foi esquecido, tampouco vencido. Enquanto houver quem escreva e leia com esse grau de escuta, inclusão e sentimento, os tambores continuarão soando.

“Tambores da Terra Vermelha” é, antes de tudo, um livro que convoca o leitor a desacelerar, ouvir e lembrar. Não pede aplauso, mas respeito; não exige pressa, mas reverência. Uma obra que não se encerra na última página — pois continua ecoando, como todo bom tambor, muito depois do silêncio aparente.


(por Bernivaldo Carneiro, escritor cearense)

2025JAN02  


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